domingo, 20 de maio de 2012

ANTEVISÃO DA EXPOSIÇÃO JULIO SHIMAMOTO – O SAMURAI DOS QUADRINHOS – NO VIII FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DE BEJA 2012


Julio Shimamoto, visto por Bira Dantas

ANTEVISÃO DA EXPOSIÇÃO 
JULIO SHIMAMOTO
O SAMURAI DOS QUADRINHOS
NO VIII FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DE BEJA 2012 

QUEM É JULIO SHIMAMOTO 




"Kamon" (brasão da família Shimamoto no período feudal do Japão).


Director de arte, artista plástico e autor de banda desenhada brasileira (HQs ou quadrinhos), Julio Yoshinobu Shimamoto nasceu em Borborema, no interior de São Paulo, em 1939. Shima, como é conhecido profissionalmente, desenvolveu a sua vocação artística desde tenra infância, na isolada fazenda de seu pai, rabiscando no chão com gravetos. Conseguiu o seu primeiro emprego de desenhador no Departamento Promocional da empresa multinacional “Sears, Roebuck & Co.” (Lojas Sears).

Particularmente muito conhecido pelos seus trabalhos no género de terror, estreou-se profissionalmente como desenhador de BD em 1959 pela Editora Continental/Outubro, onde desenhou a primeira história do Capitão 7. Esta estreia de Shimamoto iniciou-se como assistente de Jayme Cortez (Lisboa, 1926 – São Paulo, 1987), desenhador português que colaborou no semanário O Mosquito até 1946, emigrando de seguida para o Brasil, onde veio a ser reconhecido como um dos maiores autores da BD brasileira (ver AQUI o blogue que lhe é dedicado.

 1959, São Paulo. Inauguração da Editora Outubro, da esquerda p/ a direita: Jayme Cortez, Miguel Penteado (Diretor), Nico Rosso, Luís Rosso, Ignácio Justo, José Sidekerkis (atrás de Luís e Ignácio), eu, Kato (cortado), Aylton Thomás, Gedeone Malagola, João Baptista Queiróz, Álvaro Moya, Guilherme Valpeteris e Zezo. Quase todos eram desenhistas ou ilustradores. (Foto enviada por Shimamoto para ser publicada no BDjornal #28)

Em Maio de 1963, Shima criou a pedido de Maurício de Sousa, as tiras da personagem Fidêncio, o Gaúcho, para o Suplemento Infanto-Juvenil do jornal Folha de S. Paulo.

1962, sede do jornal "A Folha de São Paulo", no dia em que assinei contrato para a publicação dominical 
de "O GAÚCHO". Amigos meus, pela ordem: Lyrio Aragão Dias, Maurício de Souza, eu, e Paulo Hamasaki  
(desenhistas) - Foto enviada por Shimamoto para ser publicada no BDjornal #28


 O Gaúcho, volumes 1 e 2, compilação das tiras de Fidêncio, o Gaúcho, da Editora Júpiter em 4 volumes, 2007/2008


Entre 1961 e 1964 Shimamoto foi um dos responsáveis pelo movimento de nacionalização dos quadrinhos, ao lado de Maurício de Sousa, Ely Barbosa, Gedeone Malagola, entre outros, integrando a Associação de Desenhistas de São Paulo (ADESP). Com a instauração da ditadura militar no Brasil (que durou de 1964 a 1985), temendo possíveis represálias, Shimamoto passou a dedicar-se à publicidade.

Entre meados da década de 1970 e início da de 1980 voltou aos quadrinhos, para várias editoras, desenhando sempre (e por vezes escrevendo os argumentos também) HQs de terror, artes marcias e, em menor grau, HQs eróticas.

Com o seu traço denso e inconfundível, passou por praticamente todas as editoras do país: La Selva, Taika, Outubro, Ebal, Noblet, Folha de São Paulo, Ática, Editora do Brasil, Cooperativa Editora e de Trabalho de Porto Alegre, Vecchi, Grafipar, Abril, D-Arte, Press, Maciota, Record, Globo, Bloch, Via Lettera, Devir, Marco Zero, Novo Mundo, Escala, Nova Sampa e Opera Graphica.

Pertencente a uma geração de grandes nomes dos quadrinhos de terror (o género mais importante, forte e representativo das HQs brasileiras), Shima é considerado por grande parte da crítica especializada como o maior desenhador brasileiro de HQ vivo.




No fim dos anos 90, perdeu um rim e uma costela por causa de um tumor maligno. Estava então abatido fisicamente e quebrado financeiramente, raspando o fundo do abismo. Foram os quadrinhos que o puxaram de novo para a superfície. “HQ é o meu equilibrador mental; exorcisa meus fantasmas e rompe meus limites”, afirmou em entrevista para a Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação.

Em 2002 Shimamoto recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de São Paulo e em 2005 recebeu outra homenagem, dessa vez a Moção de Congratulação nº 230/05 pela Câmara Municipal de Jaboticabal.

Foi convidado de honra e homenageado no 5º Festival Internacional de Quadrinhos em 2007, tendo o Japão como país homenageado. Em 2008, ilustrou o livro BANZAI! História da Imigração Japonesa no Brasil para as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa. Em 2009 publica Samurai, uma colctânea de histórias sobre samurais, ninjas, entre outros artistas marciais pela EM Editora (na verdade um selo da Mythos Editora) e Quadrinhos para telefone celular da Operadora Oi. A sua alcunha nos círculos de histórias em quadrinhos é "Samurai dos quadrinhos".

Em 2011, foi realizada a curta metragem de animação baseada na história O Ogro escrita por António Rodrigues e ilustrada por Shimamoto publicada na revista Calafrio #27 em 1984. A direcção e produção estiveram a cargo de Márcio Júnior (que também fez a adaptação do guião) e de sua esposa Márcia Deretti e a direcção de animação esteve a cargo de Wesley Rodrigues.



UM AUTOR QUE NÃO PÁRA DE EXPERIMENTAR TÉCNICAS 

Segundo Julio Shimamoto, é devido ao seu temperamento, que ele reconhece como inquieto, que o torna avesso a fixar-se num estilo determinado e formatado. Essa característica de Shima como um incansável aprendiz destaca-se pelas suas próprias palavras: “Quando sinto que está ficando fácil desenhar de uma determinada forma, eu mesmo me rebelo e a rejeito”.

TÉCNICAS E MÉTODOS 

Shima pesquisa ambientes, costumes e personagens relacionados com a época na qual o roteiro está ambientado. Preocupa-se também com o timing narrativo, de acordo com o clima ou estilo do desenho. Então acaba até alterando o argumento, mesmo que seja de terceiros, tudo em função do impacto. “É como a interpretação de um actor de teatro, que difere da actuação de um actor de cinema, este mais realista, ”compara Shimamoto em depoimento para a Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. “Na HQ, as personagens têm que ser movidos pela adrenalina, provocadores, senão o leitor boceja.”

O dia-a-dia do desenhador de quadrinhos, para ele é solitário, uma rotina de eremita, com algumas interrupções para eventos da classe.

Shimamoto nunca deixou de aperfeiçoar-se. Ainda tem novas técnicas a desenvolver, como um compasso duplo criado por ele, que está experimentando há oito anos.

Mas é impressionante a quantidade de técnicas de desenho experimentadas e utilizadas por Shima, que vão desde a tradicional tinta-da-china com pincéis, até à imitação de xilogravura, utilizando tinta negra sobre azulejo e trabalhada com estiletes, ou mesmo raspando fumo de vela sobre azulejo; passando pelo bico de pena com tinta latex (tinta para pintura de paredes) branca em cartolina negra; papel recortado e colorido com ecolines; tinta latex branca sobre bexiga vermelha esticada, e copiada em fotocópia depois de distorcida; canetas hidrográficas; tintas latex e corantes sobre papel de jornal ou de revista; até ao desenho digital para tablets, etc... etc...
Capa - revista (Billy the Kid) - técnica: tinta latex e corantes

Papel recortado e colorido com ecoline

INFLUÊNCIAS 

O autor acredita ter sido influenciado no começo por Sid Shores, que desenhava Capitão América, e mais tarde cowboys, nos anos 50. “Um desenho macho que transpirava vitalidade”, segundo Shimamoto. Em seguida, foi incorporando outras influências, dos estilos de José Luiz Salinas, Will Eisner, Hugo Pratt, Austin Briggs, etc.

O autor teve chance de conhecer pessoalmente muitos autores, chances para trocar idéias não faltaram. A maioria foi de brasileiros: o mais famoso Maurício de Sousa, além de Jayme Cortez, Nico Rosso, Scudellari, Flávio Colin, Getúlio Delphin, Zalla, Colonese, Cláudio Seto, Watson, Mozart Couto, Rodwal Mathias, Zezo, Álvaro de Moya, Saidenberg, Lírio Aragão, Igayara, Miguel Penteado, Isomar, Queiroz, Sérgio Lima, Gedeone, Hamasaki, Dag Lemos, Pizzi, Webster, Bortolassi, Kubert, Sienkiewics, Mazzucchelli, Loe Falk, Manovic (Manoel Victor Filho), Odylon, entre outros.

Mas ainda nestes últimos anos o autor acredita ser suscetível a influências, bebendo mais, no entanto, de desenhadores marginais, fanzineiros, quadrinhos underground em geral. “É como experimentar pratos exóticos de algum país desconhecido”, conforme seu relato em As Histórias em Quadrinhos no Brasil, na Intercom.

O cinema também exerce muita influência no trabalho de Shimamoto. Cita o filme O Último Samurai em particular.

OBRAS 

TIRAS

FIDÊNCIO, O GAÚCHO (Folha de S. Paulo, 1964-1965, republicado na revista Carabina Slim pela Editora Noblet e em 2007 como revista independente pela SM Editora de José Salles)

REVISTAS EM QUE PUBLICOU

Spektro – 1970/80
Pesadelo – 1980
Sobrenatural – 1969
Metal Pesado – 1997
Fêmea Feroz – 1997
HQ - Revista do Quadrinho Brasileiro – 1998
Coleção Assombração (Ediouro, 1995)
Carga Pesada (RGE, início dos anos 1980)
O Fantasma (RGE, anos 1980)

ÁLBUNS

SOMBRAS (Opera Graphica, 1998)
VOLÚPIA (Opera Graphica, 2001) – material publicado entre 1978-1981)
MUSASHI I (2003)
MUSASHI II (2003)
MADAME SATÃ, (Cassino, 2003)
SUBS (Ulisses Tavares e Júlio Shimamoto, 2006)
CLAUSTROFOBIA (Devir Livraria), escrito por Gonçalo Júnior

LIVROS

LENDAS DE MUSASHI (escrito por Minami Keizi)
LENDAS DE ZATOICHI (escrito por Minami Keizi)
BREGANEJO BLUES



COMPILAÇÕES

O GAÚCHO, (Editora Noblet, 1985)
O GAÚCHO, (em 4 volumes, Jupiter, 2007/2008)
SHIMA – HQs clássicas de um samurai dos quadrinhos (Editora Marca de Fantasia, 2007)
SAMURAI (Mythos Editora, 2009)

PUBLICAÇÃO ONLINE

PAIN KILLER, argumento de Fernando Azevedo, desenhos de Julio Shimamoto, cor e letragem de Adauto Silva. (em Quadrinhos Oi: http://quadrinhos.oi.com.br), 2009.

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